20 Março, 2014

OS FILHOS


















OS FILHOS

Lembro ainda hoje, como ontem, como se o sol batesse na cara e se espalhasse pelo corpo
aqueles pezinhos pequeninos saltitando pelo chão, atirando-se para o meio do aconchego,
entre pai e mãe, entre o amor divino e eterno, na proteção do tempo e do espaço.

Nos dias de cansaço invernoso onde as maçãs não são mais maçãs
e onde o vento me corta em dois e a chuva canta desprovida de sentimentos,
como o coaxar das rãs – porque sim.

Sei das vossas mãos pequeninas que me tentam alcançar como se a um porto ancorassem,
do meu sono desperto, entre um livro e o vosso respirar, entre as febres que vos afligem, os dentes a romper, e os meus braços num amparo, o aconchego doce da mãe, a vossa estrela cintilante.

Eram vossas as madrugadas televisivas, no despertar do “Dumbo” e outros que o tempo me fez esquecer, e juro-vos que aquele é que era o Mundo, o Mundo onde o tempo para, e descobrimos que de repente é o Sol que vem para nos abrigar.

E vamos aqui e ali juntando letrinhas para fazer um novelo de palavras, nas vossas silabas que me encantam, como se uma oração a um Deus protector, perguntas repetitivas numa qualquer viagem, com as asas da mãe galinha num recosto subtil e duradoiro

Onde um fio de luz rasga a memória no corredor de espelhos do tempo,
os vossos rostos e este enorme amor que vos guardamos.

E o tempo passa e adoça a boca e vocês crescem e ficam homens lindos
e soltam-se num voo rasante e elegante, com as respostas todas numa história de afectos.

Algas invadem as praias, palmeiras espreguiçam ramos na direcção do Norte,
o vosso mundo é diferente, fazem conquistas na vida e o amanhã é vosso.

E juntos temos o nosso lugar.
O lugar onde barcos navegam ondas, onde as mãos se tocam,
onde o pai e a mãe vos abraçam pela eternidade e os olhos procuram ate encontrar…os filhos.


24 Janeiro, 2014

FICO FELIZ NO TEU SORRISO






Fico feliz no teu sorriso
Nunca sei se te volto a ver, e sofro.
Palavras, silêncios, um sabor amargo e a noite a entrar livre pelas janelas. A mansarda onde encolho pranto. 

E nunca sei se é tarde, muito ou pouco, nefasto e inquieto, cheio ou vazio, mas sei que perdeste o momento, o instante em que nos abrimos, em que nos fechamos. Actores de nós, mímico sem palco.

Uns dois a três passos, um volteio. Passos de bailarina em contraponto de ti.
O céu, tão sombra e luz, e nós.

Sinto o embaraço da palavra, ruas de sentido único, a inexatidão do momento, o candeeiro que se apaga na passagem, como um cumprimento.
Sete partidas, sete colinas de luz, margens do rio, palavras e gestos flutuantes, e não sei se te volto a ver.

Os meus rebordos labirínticos em ti e o mar na imensidão da alma. O teu rosto de boneca imperfeita, sorriso (mesmo que no silêncio) contagioso.

Fico feliz no teu sorriso.

Trazes a angústia e o peso do corpo que não dorme. Mantenho-me suspenso e reaprendo a viver por dentro da alma.
Nem amoras nos silvados, nem romãs da tua quinta algarvia, nem uvas pisadas nem cesto de vime.

Um tempo labiríntico este. E aí, sou eu o teu cansaço, a tua incerteza a tua conta, a tua chama interior, a tua inquietação.

Está sol como no fim de semana de Paris, entre a camisa de linho e a minha t shirt branca, onde escorregas as mãos e as poisas no meu peito.

Por vezes acredito que o silêncio me deixa invisível. 
E é nessas alturas que o meu corpo se dobra em quatro e me abandona, a minha força liquidifica, a minha alma desvanece, o meu sangue gota a gota se despede, num até já. 

Gosto das surpresas dos dias, dos instantes que aconteceram sem pensar acontecer.
Podia até pensar em desistir, mas quero ainda trazer-te o sol e a lua, sentá-los no alpendre entre nós, e com tão pouco dar-te o mundo. 

Nesse caminho de muito poucos onde nos encontramos. 
 O caminho do olhar limpo, do respeito claro,  onde fico feliz no teu sorriso



29 Dezembro, 2013

OS ANJOS NÃO TÊM COSTAS...!




Apetece-me de novo a timidez do meu espaço, a minha quietude, o silêncio.
Passos só os meus. Dos teus, saberás tu.

Silencio que escorre nas paredes e inunda gavetas como danças suaves e mornas de saudade, enquanto o tempo vagueia preguiçoso através das vidraças que me encobrem corpo nu.

É nesse instante que te olho e esculpo com mestria o teu corpo no pensamento. Momento único em que a vida acontece em mim.

Hoje, por tudo e por nada, revejo fotos antigas, capas duras de álbuns, rostos que me olham. Uns que alcanço, outros nem por isso.
Sorrisos desfeitos, emoções nas pálpebras, transviadas por rugas inculcadas, no meu sinal fidedigno e nas comissuras dos lábios.

Corpos sugados pela garganta ferrugenta, decrepitude melancólica, olhos como vitrais solitários.
Estou hoje, como ontem, quebrado, a  recusar o dia, quando réstias de sol apontam às frechas de portas e janelas, como anjo luminoso repartido por cruzadas, no tempo sem tempo em que me encontro.

Eu não sou daqui.
Nem deste tempo, deste espaço ou desta luz repartida por mil pedaços.

Vivemos sempre tão cheios de tudo e tão repletos de nada, em bolhas de segurança, casulo perfeito, enfeitando o azul do dia e o negro da noite, replicando inseguranças interiores esvaziadas numa ampulheta de areia suave.

Gosto desta intimidade só minha de deixar o mundo todo à porta de casa.
 Refrão de fadista, palavras numa melopeia estranha, saltos de rã, voz de cigarra em ritmo lento.
Xailes vistosos de varina, fadistas embrulhados no negro, sorrisos desbotados e anjos  sem asas.
Nem palavras escritas no céu, nem doces feitos à mão nem morangos como sobremesa.

Apetece-me apenas a timidez do meu espaço, o meu canto adormecido, o tempo que corre na mansarda, o gato que me espreita sorridente, a tua passada larga, um café contigo e porque não ?

Enquanto Anjos entorpecidos descansam sobre retalhos da vida e eu retardo os passos para não os acordar.

17 Novembro, 2013

MOMENTUM




Aproxima-se pela noite.
Anjo luminoso como pedaço de pele, recostado, sombrio, sublime e confidente.

Gravata encurtada de arrepio, camisa de marca redonda, sapatos bicudos de polimento, corpo de pulmões sustidos e coração em ritmo brando.  
Enfado de tiques repetitivos, alvéolos sem cor, vida em coma pastoso

Cara magra lavrada de ossos numa dança de metamorfose, casulos de sonetos enchem a alma romanceada,

Os dias foram corridos a pó e erva seca.
Agora, a neve sonolenta, entra na vidraça aberta, e como pétalas vai aterrando no teu corpo e no cabelo revolto, empalidecendo a anemia.
 Multiplicidade de rostos entre sombras e imperfeições. Pupilas afagadas como lâmpadas fundidas.
Constelação de sonhos, mensagens escritas no céu, desgovernadas, sem amparo.

 Leio frases completas nas circunferências da tua boca e baloiço na corda do sorriso que me empalha rosto e colagénio que te habita corpo.

É domingo de missa.
Apelos do sino inquieto da aldeia, mantos de pratos numa culinária afrodisíaca para regalo fradesco.  Bizarrias da tia agarrada às condecorações do seu pai general, enquanto a roupa estendida de varanda a varanda faz mímicas.

E eis que o corpo do senhor é absorvido por olhos fechados e língua espraiada como camaleões prontos a devorar gulosamente hóstias de sacristia com rezas a santo expedito.
Sacrossanto ou não, a verdade é que o meu tio velho, muito velho, como se tivesse nascido no principio do mundo, com movimentos pastosos e engordurados remexia no relógio como pêndulo agónico.

Trinca espinhas de artefacto, com vida cheia de minutos elásticos e horas a perder de vista. Ele que sempre fora endinheirado mas duplamente órfão tinha um coração com sobressaltos de rã.

Mirava e remirava damas de cinquenta geometricamente ordenadas, recheadas de projectos, relações emancipadas e iconoclastas.
Arrancavam busto de corpetes afivelados enquanto abocanhavam cigarros acoplados e boquilhas.

O olho tenebroso do tio velho, muito velho, pulava delinquente, e a dentadura mordia internamente tomando hábitos estranhos, ele que toda a vida esteve atado a cadeados de desgosto, mantinha uma respiração a três-quartos asfixiante.  

Os dias continuam corridos a pó e erva seca. Está frio.

O Anjo luminoso reparte-se por várias cruzadas, o velho tio cristaliza  o medo e a timidez e as damas de busto acentuado, corpos frenéticos inflamados de fogo, benzem-se na paz do senhor.

Porque hoje é domingo de missa. 

08 Setembro, 2013

MOMENTO






Abres o corpo em pétalas de lágrimas, cor de bronze e cheiro doce de memórias invisíveis e palavras por dizer.

Derramas suspiros pelo peito em alvoradas firmes de existência.


Abro janelas, recorto portas e vidraças e rasgo-me no arame farpado do meu interior.

Dilato-me enquanto te escrevo postal de arco-íris perfeito, com pó das amêndoas e figos por descascar.

Figuras esquálidas como fantasmas que nos habitam num  sorriso dente-sim,  dente-não.
São assomos de coragem, flor de anseio vertical num poema que demora.

Suspendo o tempo, esvazio as palavras e adorno a língua que se abre ao sol, e espremo a prece na paz dos teus braços e no aconchego dos teus olhos.

Palavras que envelhecem comigo como a tua luz e o meu Anjo que a guia.

Não há pontes nem atalhos, linhas rectas ou circulares na dádiva das tuas mãos, nem passos nos teus dedos que me cruzam caminhos, em frases e frases dilacerantes, enquanto me reduzo ao silêncio de um hálito quente.

Holograma colorido, riso fácil, dedos empertigados e finos, mesclada entre o dever e o divino, monólogos ensaiados no turbilhão do tempo.

Resgatado dos becos despovoados, dos labirintos onde a angustia e a morte perdura, dos caudais crescentes na tua alma.

Este é o teu corpo de bronze, a vida que escorre por nós,  o tempo incerto na voragem dos tempos, o gesto da mão dormente.


Este é o momento.

14 Agosto, 2013

Sem Coordenadas




Ruelas estreitas que afunilam noutras ruelas. Algeroz solto das fachadas.
Nevoeiro sobre a ponte que abraça as margens.

Acordeão de cegos desbravando a noite por entre prédios murmurantes e sujos.
Igrejas barrocas com santos incrustados enquanto se escutam rezas em oratórios, padres com barba de oráculo, pedidos de intervenção divina e incenso de adoração.

No canto da sala junto ao móvel deixado pela minha tia-madrinha uma ampulheta com areia, enquanto ao lado molduras viradas umas para as outras em diálogos permanentes.

Estamos num domingo lunar. Tempo de ousadia, coração em coma induzido.
Fome em pão duro, a tua cumplicidade no meu caminho.

Pulseiras de baquelite, anéis caprichosos, argolinhas de metal como brincos.
Diamante minúsculo pregado ao nariz, falanges abundantes de anéis, cabelo com duas  camadas em jeito de espiral.
Crucifixo ao pescoço, baloiçando entre as gordas mamas como relógios século XVII

As mãos no rebordo da vida. Uma cruz cravada nas costas, suplícios e queixumes. 
A vida inteira no segundo que antecede a morte . O suspiro na partida.

A minha alienação nos teus olhos. Pupilas submissas na direção do céu.
O teu avô estrábico, gotas nas cataratas. Folhas que se mexem dançando nos ramos das árvores, zumbido monótono de conversas nos beirais, enquanto o sol rasga a penumbra e penetra languidamente por ti dando-te um tom suave amarelado.

            Falta-me a vizinha alcoviteira, o sal a mais e uma colheita alentejana.

Sinto a pele em chagas de incisões infelizes, o fígado que me entontece.
Aspirinas e paracetamol, termómetro sem mercúrio, medições permanentes, gotículas de chuva no braço direito, semáforo verde incandescente, juras de pontualidade em juras de paixão e sonhos.

Redemoinhos nos nós dos dedos, dias com menos dias,  o espaço na tua ausência.
Contorno-te zangas com beijos amendoados, perífrases e  silabas tónicas, garrotes na contracurva do nosso olhar em misturas subversivas.

Pressinto a hora do naufrágio de barcos sem rota e os meus lábios sedentos na mudez deste verão sem coordenadas.








02 Agosto, 2013




AINDA HOJE


Ainda hoje meu amor, carcomido pelo tempo, garganta empalhada de cigarros mal fumados, com o odor dos castanheiros em pano de fundo, afugento as lágrimas.

Ainda hoje meu amor, deslizo pelo branco dos jazigos, ciprestes galgando ao vento, sinos pachorrentos da capela, cristos quebrados na cruz que me espia vagaroso.

Ainda hoje, percorro o mesmo espaço entre lápides e folhas secas, torneiras jorrando água límpida e rosas do teu jardim de inverno, aquele em que habitas entre bênçãos de santos e danças de fantasmas querubins.

Ainda hoje, décadas e décadas volvidas, entre o miúdo borbulhoso e o idoso calvo com placa, grilhetas presas da doença, na cadência do peito inflamado e das hesitações do coração, vou respirando o teu ar, refugiando-me na nuvem da saudade.

Hoje, os eucaliptos choram lágrimas de desgosto, enquanto luzes se prolongam pelo Tejo, pagelas de santinhas, um arrebique de talha, frases da bíblia em citações, vasos de magnólias, suspiros desajeitados em arrufos de cama.

Ainda hoje sentados no limbo das coisas raras, entre uma margem e outra nesta Lisboa brejeira, prolongo a minha vida em ti.

São momentos tão nossos que a alvura e a sombra se entretêm a olhar-nos,  as árvores se despenteiam das folhas, enquanto a  língua do rio espalha barcos por entre os ancoradouros e amantes sorriem no cais, permanecendo ali enquanto o universo se recompõe à nossa volta.