Mil conversas, mil temas, mil opiniões, falar de tudo ou quase nada. Desabafos, alegrias e tristezas, risos e cantos, choros e gritos aflitos, saltos na rede e sem rede, liberdade total e inteira responsabilidade.
E é nestas teias de palavras que me solto, que sou mais "eu".
E escrevo nos gestos intimos dos meus sonhos, na alegria que sobra depois de arrastada a dor.
Mudou a hora
Independentemente disso, nada mais mudou. As mesmas caras, as mesmas casas, as luzes dos candeeiros toscos, os riscos do meu carro estacionado cem metros à frente.
A tua sombra pensada por mim inebriando os sentidos.
Um dia, beijo-te a meio de uma frase...
A voz que oiço, a tua voz que me canta, num açoite de memória. Quem diria que apenas uma voz pela calada da noite, tomando formas e gestos de fada.
Mudou a hora e nada mais...
Já passaram quinze minutos desde que comecei e apenas a voz, mais a minha caligrafia paciente de monge copista.
Um carreirinho de carros na direcção da Foz, o "Sétima Vaga" com esplanada aberta e um cenário de luz e cor.
Ris comigo, e eu gosto de "te rir", apesar das amarras que te esventram a casa e escancaram janelas e o espelho da vida.
O teu sorriso que não conheço, mas sinto, como a voz da rádio que me inquieta.
Um dia, beijo-te a meio de uma frase...
As nossas bocas que se encontram no trajecto nitido de uma palavra
Matriz dos dias, sonoridade absoluta, percursos seguros nas circunferências traçadas das nossas bocas.
E invento o mundo em aguarelas de cor e vento com sabor a sal.
Gotas de chuva misturadas com o teu suor no rosto em fotos " à la minute".
Não tenho ilusões, mas vontade de ti, e tantas vezes tão só, que tenho saudades de mim.
Falo redundâncias e escrevo este texto sem selo nem remetente.
Apeteces-me como nunca, nas formas e aromas dissolvidos em beijos nos teus musculos cansados de leituras nocturnas e sonetos de Chopin.
Já me sinto muito grande para este corpo, ou será a alma que se quer desprender?
Oiço longe o meu grito, e ele chega-me como "boomerang" em ondas aflitas.
Dobro a esquina neste empedrado que me amortece a alma, para fugir dele, mas acabo por o devorar no medo das noites silenciosas, sonhando sombras de rebuçados coloridos.
Baloiças suavemente por dentro de mim, como um brinquedo guardado na imaginação fértil que te povoa.
E é Novembro, e afinal tu não estás aqui.
Mentiste mais uma vez, preferindo mil vezes mais, viver na sombra do que em mim.
Já me sinto muito grande para este corpo e sinto a alma a desprender.
Cicatrizo as feridas abertas lambendo-as até à exaustão. Tenho a vida feita pânico com a tua ausência.
A minha língua forrada de palavras mas a boca adormecida. Eu não falo e tu não brincas baloiçando por dentro do meu corpo jovem que te ampara o desassossego.
Empecilhas-me o tédio e alteras inesperadamente a química do meu organismo, qual medicamento tomado a horas certas.
Sinto finar-me… a passar-me literalmente... e a alma a desprender.
Não sei como faço.
Se te rebusco e modifico metendo mãos enérgicas nas entranhas e virando do avesso órgãos harmoniosos mas aprisionados, se te confronte e aprisione à minha boca numa sonoridade tangível, para perdurar como bruma e matriz dos dias.
Termino café na baixa, a noite vinha apressada e a luz da estação do rossio a cair em catadupa, relevando orquestras de músicas natalícias.
E apareces do nada…inquieta, fumegante e a minha boca aprisionada numa língua adormecida sem sonoridade.
Tocas-me na mão e muito suavemente deslizas com ela sobre o teu peito arfante, deslizando de novo até ao umbigo, morrendo aí.
Não sei como faço.
Se invento mil e uma formas de me implodir se aguardo o retorno do grito que me apavora meninges cansadas.
E no teu sorriso nervoso,
no teu olhar como pétala de um Outono florido em odes madrigais perco-me, fechando os olhos e sentindo o meu corpo dissolver-se em nada.
Já me sinto muito grande para este corpo, e não sei se a alma ainda se quer desprender.
Prendes-te com atilhos e laços nos rebordos de mim e não desatas nós, nem por sombras...
Escreves papelinhos coloridos que espalhas pelos meus bolsos e desenhos vários colados com pedaços de baton nos espelhos em que me vejo.
Pintas com tinta da china e pastel, enrolas-te em telas açucaradas e deixas que te prove às colheradas.
Alinhas o teu no meu corpo e defines fronteiras de sabor em lábios sedentos de paixão.
Sorris nervosa a cada pedaço meu por cada pedaço teu e não te cansas quando te conduzes no meu olhar
Congelo memórias de sorrisos timidos na parcimónia quando te deitas em mim... e era eu o teu local de culto, o teu espaço preferido, faça chuva ou faça sol.
Afrouxo-te os impetos que considero desiguais e devoro a distância entre nós.
E todo eu pintor, todo eu arquitecto, todo eu engenheiro, contorno cordilheiras, cobrindo-te de papel cavalinho ou folhas A-4, como anjos disfarçados na neve.
Reconheço-te em sorrisos, discursos fluentes, em paradigmas que me fazem vibrar, umas olheiras inquietas e mal dormidas e uma ou outra ruga a mais.
E ontem, hoje e sempre quero-te mesclada entre o ser e a natureza, entre o dever e o divino e o mimetismo dócil que me faz criança em ti.
E no dia em que este voar terminar, as noites serão enormes, os dias imperfeitos,e passarei a oco de árvore velha, já sem ramos, já sem folhas, cobrindo de cinzas o arco-íris no teu olhar juvenil.
A Paula do "Modos de Olhar" invadiu-me o espaço com o desafio de completar as 5 frases que se seguem...
Eu já tive... a ideia de que andava tudo louco, e ainda não perdi a esperança disso ser verdade... (lol)
Eu nunca... mais alinho nestas coisas... (lol)
Eu sei... que mais vale tarde que nunca, que a verdade vem sempre acima como o azeite, que confio demais nas pessoas e que me gasto em coisas que sei não valerem o esforço.
Eu quero ...ver os meus filhos bem, felizes e com saude, e homens bem formados .
Eu sonho ... com um mundo sem falsidades, sem cinismo, sem guerra e sem fome, e mais tolerante ... (sei que estou a pedir o impossivel... mas quem sabe se forçando...lol )
E... segundo diz, tenho que passar a 10, e estes valem a pena ...! searas de versos
E já me revejo no Natal.
O sapatinho de há quarenta anos no fogão, enquanto o senhor das barbas descia embrulhos vistosos pela boca da chaminé.
Brinquedos com chocolates dentro, como o meu pai adorava fazer.
Esta coisa do Natal outra vez. A data em si.
Eu Capricórnio, o meu pai também, aniversários próximos, o seu desaparecimento e o de minha mãe por esta altura, e a época, mais as luzinhas e os santinhos e os abracinhos e um "feliz natal" despido, prendinhas disto e daquilo, mais embrulhos e lacinhos, mais os que olham de lado rosnando... "festas felizes"...
...uma porra é que é.
E neste tempo, uma cadela com cio, frutos das árvores que apodrecem e os gulosos dos cães em fila.
A cadela vaporosa e saltitante com um corrupio de latidos e amantes ou clientes ou apenas conhecidos, de passagem... que amansam a fera.
E o frio que não chega, a chuva que tarda e um Novembro que adivinha pandemia de gripe e o texto que sai com dor, sofrido.
Se fosse financeiramente independente, saltava este mês.
Fechava literalmente para obras. Obras internas.
E no entanto dói. Vai doer sempre.
E parto. Parto de mim, fazendo pausas, navegando outras ondas, outros mundos, cheirando jacarandás, absorto, abstraído de tudo.
Esta dor que ninguém vê, dor fina e ardente.
E a mão que procura a caneta e os dedos enlaçados nela e no papel, tentando adornar escritos, frases.
Não necessariamente com sentido, mas que apaguem ou afaguem a memória.
E eu sozinho, nesta consulta interior.
Já me conheço a habitar estes espaços num adormecimento propositado.
E na época, eu e o meu irmão Artur. Um desassossego na espera, sapatinho no fogão...
- Ele vem ? sabe onde moramos ? Conhece a chaminé ? Respostas não encontradas nesse dia, apenas uma noite sem dormir em congeminação de irmãos.
Agora não me apetece falar. Apetece-me estar assim, quieto nesta cadeira.
Apetece-me um cigarro e não fumo, mas apetece-me mais ainda o meu pai e o meu irmão e aquele tempo, nem que seja por uns minutos, as prendas no sapatinho e o homem das barbas a reboque de um trenó e as luzinhas que acendem a cada "feliz natal" rosnado por gente sem gente dentro.
Apetece-me que as cadelas desta vida cheguem ao lugar que pretendem, com ou sem cio. Que os cães marialvas abanem as patas e lancem corridas desenfreadas, que os jacarandás exalem perfume e o sapatinho sirva para no mínimo, aquecer o coração.
O esqueleto de alguém que anda.
Esse corpo e alguém com ele.
Vou ter de entender isto...
Talvez janelas repletas de fantasmas que vão soltando por aí.
Saem do corpo, deixando-os pendurados – Vão chatear outro...
Permanecem em silêncio no meio dos silêncios. Talvez também fantasmas silenciosos.
Acham estranho… – Vão chatear outro...
Ela tão magra que os dentes lhe sobejam no sorriso, e as sete partidas de Lisboa vistas da ponte, luz e cor, vidas soltas, amarras de amantes em cacilheiros vadios.
Tragam-me serenidade em vez de bife do lombo, serenidade bem passada como o bife.
E a nostalgia das horas aqui e ali.
Rastos de gente entupida de ansíoliticos e anti-depressivos até ao “cocuruto”.
Esta palavra estranha a lembrar-me música bem mexida, solta e fresca, rastos de gente, cadáveres ambulantes a pedirem mais dança, mais corpo, mais amantes amarrados menos soporíferos.
Um cego na procura de sombra, uma luz ténue, um tactear na busca de caminho.
E sei dos teus olhos e do que não vês, mas outros olhos por trás destes.
Outros braços por trás desses, cansados, desamparados, sem poiso nem regaço, Um outro coração, um outro bater.
E os teus olhos onde ficam?
Outra metade de uma alma, metade de uma asa, espiral de solidão.
O esqueleto de alguém que anda. Esse corpo e alguém com ele.
Vislumbro casais ao longe e um manto de nevoeiro nas margens do rio e um beijo ardente. Ardente o beijo e o seu fumegar e baforadas juntas.
O esqueleto em pedaços de gente e a sua finitude e a finitude dos outros.
Um caminhar sem olhar e outros olhos por trás destes, uma outra metade de ti.
Rastos de gente por aí.
Porções de gente galopante, encharcadas de lavanda e sabão azul e branco.
Uns, cavernosos de cigarro embutido entre dentes desfeitos, outros com cardápios de perfume a tiracolo em cheiro adocicado e nuvens densas misturando odores e “baton” de mulher de vida fácil.
Somos cegos na vida que não queremos ver, que nos passa e trespassa como anexos de outra vida qualquer, paralela, inconveniente.
E vemos e revemos os mesmos gestos, os mesmos olhares incómodos, esqueletos abandonados, rastos de gente sem gente dentro.
O esqueleto de alguém que anda, esse corpo e alguém com ele…
Ainda não consigo entender isto.
A minha professora primária, com uns braços nus, perna lengosa, apetitosa, peito firme de mulher quente e eu a gaguejar os rios, caminhos de ferro e cordilheiras.
Angola, Moçambique, Guiné, tudo na ponta da língua e o orgulho dela que inchava, e eu pasmado, trocando os afluentes.
As serras e as cercanias e as meias de vidro que ajeitava na barriga da perna, torneava a anca, o lápis que caía e um roçar de mãos na pele e o comboio que entra no rio, Angola que desagua em Espanha e nem uma planície quanto mais uma montanha.
Eu a segurar cotovelo na mesa, mão em concha na cara que repousa e um olhar difuso.
Ali, entre o ontem e o “qualquer-dia”.
Duas filas atrás de mim, o “Zafra” que relincha palavras sem nexo com sotaque acentuado do Porto.
Bandos de pássaros que circulam entre o telhado da escola e o alpendre próximo. Eu que os vejo e oiço do outro lado, vou desvanecendo o pensamento nela.
A minha “Psora” tamborilava os dedos na secretária vazia por trás de uma boca carmesim.
Vincos serenos dos lados da boca.
O Sérgio, todo dioptrias, aproveitava a falta de vista para um aligeirar de mãos nas miúdas, levando aqui e ali uns estalos que entendia como um adorno no marialvismo de tenra idade.
Olhos de gata incendiavam os mapas, e eu... distritos e províncias, cordilheiras e vales e sonhos e aulas de geografia a desoras.
E o seu modo lento de olhar. Não uma expressão absoluta antes um adocicar de almas e eu a voar para junto dos pássaros, todo eu asas, todo eu céu, todo eu nuvens.
E ela, meias de vidro, collant´s, perfume inebriante e depósitos de creme na cara como tulicreme para barrar.
Será ela actriz num cenário das nove ou apenas metrópoles, estações, rios e distritos?
A bandeira da nação, mais o mapa mundo, varinha e régua com olhos, as linhas de comboio que perdi, provincias que não encontro, o seu trejeito de pernas o cabelo esvoaçante e os mistérios reservados nas meias de vidro e o toque mágico num roçar de mãos, entre relinchos cavalares e as dioptrias mais a boca carmesim, com a imagem protectora do Presidente do Conselho e o crucifixo da esperança.